terça-feira, agosto 30, 2005

monólogo

o rasgo de originalidade é sempre arrumado na prateleira dos rasgos de originalidade

é preciso aceitar isso porque o oposto é demasiado improdutivo

tem nojo de ti mesmo se te conformas

vive com isso cínico e hipócrita

e aceita o isolamento

vê como o teu pai se ri do teu sonho

e a medalha que te deu transformar-se-á no laço ao teu pescoço

shhh...

domina o silêncio, captura o silêncio, ouve o silêncio

e dilui silêncio no ruído poluído que julgas ser a tua voz original

a essência do acto original é o silêncio
porque é o que não dizes que os outros julgam ouvir

segunda-feira, agosto 29, 2005

cigana

cigana adolescente
de clarões negros nas mãos
a sina escrita a sangue
dançou na festa do vale

de longe me chama
pousando os pés
para dentro da mata
e um beijo viscoso
no fundo da mata

na secreta clareira
de abelhas e mel
ela abre as pernas
revista porno e beata
no fundo da mata

o som da matilha
do ciúme que acende
um fogo na mata
seguro estou
escondido estou
no fundo do mar
no fundo da mata.

plúmbea felicidade

uma nuvem plúmbea deslizando majestática arrefeceu o ar que veio do mar
com toda a força
o dia franziu o sobrolho e de luminoso espelho a lagoa se fez escura
e de prata sorridente tornou rosto encrespado
por um pensamento negro

os banhistas saíram e correram agasalhar-se, recolheram aos carros quentinhos e seguros, fecharam os chapéus de sol que ameaçavam partir como dentes de leão coloridos,

felizes aqueles que na lagoa ficaram, em união com uma vela,
aproveitando o melhor do pior do dia,
que como a nuvem negra o é para o vento,
tu foste para poesia

quinta-feira, agosto 25, 2005

acredito em Deus e na vida eterna

não sei porquê mas sei por quê
não tive educação religiosa nenhuma que fosse para além dos traumas que tentam apressadamente incutir-nos quando ainda não temos forças para dizer não.
e depois, ganhas as forças, dizemos não.
E o "não" vem implacável, em formas de saudável existencialismo ou duvidoso militantismo anticlerical sempre influenciado por ideias emprestadas, pois toda a vida repetimos aquilo que nos dizem e raramente ouvimos a nossa própria voz.

E agora acredito. Da nebulosa de orion à onda do mar e sei por quê.

O meu calcanhar de Aquiles

minha mãe não era Tetis
era só uma mãe mortal
que morreu há muito tempo
num dia de Verão
em que choveu de manhã

a minha mãe deu-me a vida
o resto deu-me morte
o corpo varado
por palavra envenenada

venho aqui até ao Estige
molho o dedo do pé direito
sentido a água da imortalidade
demasiado fria para mergulhos

mas tenho um dedo do pé imortal
e deve ser dele que me vem a inspiração.

vieram as lágrimas



Ouvi o here come the tears dos the tears quando ia no 42 pela cidade, e por Deus, tudo o que vi trasmutou-se de feiura urbana para épico dramático.

A senhora que brincava com o telemóvel no trânsito escrevia um poema, as velhinhas nos quatro lugares reservados trocavam palavras de anciãs sábias, o motorista pensava no que iria oferecer à mulher pelos dez anos de casados, os drogados no muro do casal ventoso à espera do fornecedor são heróis dramáticos, o rapaz que passeia o cão tem bom coração, os grafitis nas paredes são poemas, o caos do trânsito são glóbulos metálicos das veias de lisboa, a ponte, a ponte 25 de abril à noite é um colar de pérolas no delicado leito do Tejo, pensei em ti, a garganta apertou-se e as lágrimas vieram.
Mas depois, entre duas faixas, o som da cidade irrompe intruso e sou arrancado do sonho, como se emergisse do sono profundo para o ligeiro, para logo mergulhar no profundo de outra faixa.

para lá do horizonte

Só estou bem no mar, a velejar em barcos, ou a praticar windsurf.
Pudesse eu fazer windsurf todos os dias e nunca escreveria uma única linha, o mundo salvava-se de um mau poeta e eu era mais saudável.

Quando aqui estou, em terra, só penso em olhar para cima, para as estrelas. Sou astrónomo amador e quando digo que 'estou na lua', ou que 'vejo estrelas', não sou tão metafórico como esses poetas pouco dados às ciências.

Num acesso de loucura adquiri, há uns anos, um belo e fálico telescópio dobsoniano com espelho de 10" ou 25cm. Tenho três oculares, uma de 9mm, outra de 25mm e a outra não me lembro da distância focal mas é de 2" e foi muitíssimo cara, o que em astronomia significa apenas "boa".
Tenho também um filtro solar total, que se põe como uma tampa e permite o atrevimento de ver o sol. Espero poder mostrar-vos fotos que tirei, aquando do trânsito de Venus. O sol, visto naquilo, aparece mesmo como uma bola, uma laranja, e não um disco, o que muito me confundiu inicialmente pois do Sol se pensa sempre que é uma chama imensa a arder, sem massa e sem corpo.
Depois tenho um filtro lunar, de tonalidade verde, para poder ver a Lua.
Acreditam que a Lua, num dobsoniano de 10", é demasiado brilhante para a nossa retina? Com o filtro podemos ver melhor a rugosidade da sua superfície, com o único senão de ela aparecer esverdeada, como se repousasse inerte no fundo de um aquário.

E perco-me nas estrelas e na lua, literalmente, enquanto não vou para o mar outra vez.
Escrevo nesta vela que se enfuna, prendendo fugazmente algumas palavras do vento da minha saudade, avançando linhas fora no mar da vida rumo ao para lá do horizonte.

quarta-feira, agosto 24, 2005

tango

Escrever poesia não é empilhar palavras.
Oiço um coro de «não me digas?» sarcásticos - se bem que sinta que o coro, propriamente dito, está na minha cabeça.

Não, não, está bem, eu mereço, eu mereço.
Escrever poesia não é empilhar palavras.
Mesmo que a estrutura do raciocínio seja boa, basta uma palavra errada para tornar o edifício feio e inseguro.

Posso ser querido, talvez, como uma criança desajeitada, mas não sou a madura poesia dos sapatos pretos da razão a dançar tango com os sapatos vermelhos da emoção.

vou pôr as cartas na mesa - se bem que sinta que a mesa, propriamente dita, está vazia e sou o único jogador que se senta alternadamente nas cadeiras dos adversários, sempre contra mim.

eu não escrevo poesia, ainda, o que é frustrante, já.
mesmo assim, e apesar de te pisar os pés, queres ser o meu par para o tango?

"gosto muito de ti"

"gosto muito de ti"
e fico-me por aqui
deves estar farta de mim
escrevo sobre tanto
mas não consigo
escrever sobre o amor
sem ser entre aspas
como luvas de borracha
para pegar nas palavras

tenho pânico do banal
cinismo da depressão
pornografia da solidão
vou fazer-te o jantar
quero arrotinhos de satisfação
que se fodam os poetas do engate
dou-te de comer a minha arte
e "vem mesmo do coração"

embriaguez

O dia nasce nítido e limpo mas quando a noite chega
chega de nitidez

o sol cintila agreste em luz branca mas vai e parte
parte de mim parte-se de vez

A internet pulsa e zumbe frenética zombando de mim
mim tarzan de sonia e ana na cama os três

O chefe coordena ordena faz isto e aquilo
e aquilo paga-me a embriaguez

terça-feira, agosto 23, 2005

trinta anos

faço trinta anos
daqui a dois anos
a minha vida é inconsequente
escrita do canhoto
que esborrata a tinta
ao avanço da mão
em vez de me preocupar com isso
preocupo-me de não me preocupar com isso
como se não tivesse já
preocupações de sobra.

o Sol na face esquerda

ainda não o vejo
quando espero o autocarro
faz uma tangente ao prédio em frente
e aquece-me o cabelo
nas frias madrugadas
a meio da viagem
ele galga os montes
vou para sul com ele
na minha face esquerda
entro no metro e no metro não há sol
e viajo estação após estação após estação
depois a pé da estação
até ao meu escritório
ele está de novo à minha esquerda
pois vou de norte para sul
chego ao escritório
e ele já fugiu
da janela de nordeste
sinto o calor que deixou
ligo o ar condicionado
quando vou almoçar está a pique
e ataca a calçada branca
tenho de fechar os olhos
e correr
à tarde está abaixo
da linha vitrea e cimentada
não me toca até à estação
entro no metro e no metro não há sol
e viajo estação após estação após estação
entro no autocarro e agora vou para norte
e o sol está a oeste
de novo na minha face esquerda
até mergulhar vermelho
na minha rotina assimétrica

morria por ela

morria por ela
mas de cansaço
morria pela pátria
se fosse obrigado
morria herói
mas inconsciente
morrer por morrer
morre toda gente
és um infantil,
és um mentiroso!
és um hedonista!
sou só um ciclista !
saiam da frente
olhem para mim!
trrim trrrim

descanço junto ao pinheiro
deito-me de costas
caruma pica omoplata
roda roda no vazio
o céu azul por entre os ramos
o vento embala
o que de mim não consegue dormir
por ti posso morrer agora

ofuscas o sol,
inclinas-te e espreitas
calas-me o disparate
até ao inverno

mortes perfeitas

Há mortes perfeitas
jovem lançador de foguetes
aldeia do norte
dia de risco máximo de incêndios,
o próprio petardo madrugador nas trombas
logo ali se finou numa nuvem de fumo
perto do coreto da aldeia,
para pasmo de quem ainda montava
postos de vendas de rifas e bifanas

Se acaso julgas que sou cruel,
o destino que o matou foi muito mais,
e as festas prosseguiram dia fora
apenas perturbadas
pelas equipas de reportagem
que relembravam o incidente da manhã
aos corados aldeões,
que por curiosos enquadrados
balbuciavam justificações
de resignado espanto
pois a morte é um mistério
mas também não o é assim tanto

metáforas

não leves muito a sério
as metáforas dos poetas
são truques habilidosos
e escondem insultos
se ele te diz que és como a lua
pode dizer que cheiras a queijo
mas provavelmente não tem ironia
porque eles nunca a têm
mesmo quando julgam que têm

se fosse eu dizia-te
que a Lua é como tu,
porque tu és a verdadeira referência
o termo de comparação
e não me estás a levar a sério
pois não?

praí aos tombos

A estrela moribunda
que arrefece e mirra
sozinha a um canto do universo
pode explodir subitamente
numa fecunda supernova
uma maternidade de estrelas
ou então esmagar-se
colapsar-se num buraco negro
sorvendo sóis que ainda amamentam
vidas em planetas verdes e azuis

o meio termo também existe
são as anãs brancas que arrefecem
calmas e serenas como uma velhinha
em cadeiras de baloiço
flutuando à mercê da gravidade
em bailados eternos
à espera de chocar com qualquer coisa
que acabe com elas

se escolhesses ser um fim
para pontuar a tua vida
hesitarias entre supernova e buraco negro
ou um ou outro extremo
ninguém quer ser uma anã branca
praí aos tombos ao acaso
já nos bastou
uma vida assim.